Como tornar eficiente o transporte de cargas em um país de dimensões continentais, como o Brasil? Esse é um dos temas estudados pela engenheira Karênina Teixeira, doutora em Engenharia de Transportes pela Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), com Doutorado na Universidade de Melbourne, Austrália.
Em entrevista à Agência ABCR, a engenheira, que atualmente é assessora técnica da NTC&Logística, comenta os resultados de suas pesquisas - que comparam a infra-estrutura dos países da América Latina - e aponta as deficiências e possíveis saídas para o país superar seus gargalos logísticos.
Agência ABCR - O Brasil tem o maior Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina. No entanto, infra-estrutura de transportes incompatível com as necessidades atuais de movimentação de bens e pessoas. Quais são as conseqüências disso para o País?
Karênina Teixeira - As principais conseqüências são o alto custo operacional das empresas de transporte, a pequena margem de lucro dessa atividade e a baixa qualidade dos serviços ofertados no país em comparação com outras nações. Em resumo, é o tão famoso Custo Logístico Brasil, que aumenta o custo dos produtos fabricados aqui e dificulta a sua concorrência no mercado externo.
Agência ABCR - A senhora realizou um levantamento comparando a infra-estrutura do Brasil com a de outros países da América Latina. Quais foram os resultados?
KT - O Brasil tem o maior PIB da América Latina, a maior extensão territorial, a maior população e a maior frota de veículos. Ao avaliar a extensão de rodovias pura e simplesmente, o Brasil é campeão nesse item, com 1,6 milhão de quilômetros. Mas apenas 12% desse total são pavimentados, correspondendo a cerca de 196 mil quilômetros, o que infelizmente é insuficiente para atender às necessidades de deslocamento do país. É exatamente isso que mostra o Índice de Mortara, indicador que faz a relação proporcional entre a extensão territorial, a população e a frota de veículos. No ranking do Índice de Mortara para rodovias, o Brasil ocupa um inexpressivo 10º lugar, ficando atrás de países como Uruguai, Panamá e Paraguai, respectivamente, a 13ª, a 15ª e a 18ª economias da América Latina. Com relação à infra-estrutura hidroviária e ferroviária, em números absolutos, o Brasil tem a primeira e a segunda maior extensão respectivamente, porém o Índice de Mortara para ferrovias mostra que o Brasil ocupa o 12º lugar entre 19 países da América Latina. Esse retrato revela surpresas no modal ferroviário, pois o índice brasileiro é seis vezes menor que o de Cuba, primeira do ranking, embora seu PIB seja simplesmente 23 vezes maior. No que diz respeito às hidrovias, embora o Brasil tenha a maior extensão – 2,6 vezes maior que a da Colômbia, país com a segunda maior extensão no ranking dos latino-americanos – é apenas o 10º colocado.
Agência ABCR - Segundo o estudo, o principal gargalo da infra-estrutura brasileira está no modal rodoviário. Como seria possível solucionar esse problema?
KT - O primeiro passo seria asfaltar os 1,4 milhão de rodovias ainda sem pavimentação e, depois, construir novas rodovias em corredores estratégicos para o transporte de riquezas do país. Assim, poderíamos ter um crescimento econômico mais acelerado. De certa forma, é isso que o governo está tentando fazer com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), ao investir em infra-estrutura logística. O único problema é que até agora esse programa pouco fez de concreto pelo país.
Agência ABCR - Ainda com relação a esse gargalo, como você vê a importância da iniciativa privada nesse processo?
KT - A iniciativa privada tem um papel fundamental no processo de eliminação dos gargalos logísticos. Prova disso, são as rodovias administradas pelas concessionárias que, como mostra a pesquisa rodoviária CNT 2007, estão em excelente estado de conservação de pavimento, sinalização e geometria, visto que muitas fizeram obras de correção nos traçados para obter maior segurança. Deste modo oferta rodovias com nível de serviço adequado aos usuários. O exemplo das rodovias concedidas poderia ser reproduzido para as hidrovias.
Agência ABCR - Com relação a outros países da América Latina, quais foram as descobertas interessantes feitas pelo estudo?
KT - O levantamento revela que o país que tem melhor oferta de rodovias pavimentadas é, surpreendentemente, a Costa Rica, 12ª economia da América Latina. Outro dado interessante é que a infra-estrutura ferroviária disponível em Cuba é a melhor da América Latina, proporcionalmente ao tamanho do país e a sua população. Já a Colômbia, sexta economia da América Latina, tem a quantidade de hidrovias mais adequada para tamanho do seu país e sua população.
Agência ABCR - Sua tese de doutorado tratou da questão do transporte de cargas no Brasil, um país de dimensões continentais. Em resumo, de que forma os modais de transporte poderiam ser repensados para que fossem mais eficientes?
KT - Acho que o caminho para o transporte eficiente á a utilização de cadeias intermodais, ou seja, que todos os modos de transporte sejam usados integrados racionalmente em uma única cadeia logística, cada um contribuindo com o que tem de mais vantajoso. O Brasil tem um enorme potencial natural para o transporte fluvial e, hoje, isso é muito pouco aproveitado. O transporte fluvial é barato e muito eficiente. O governo deveria investir mais nesse modo de transporte, construindo, por exemplo, a eclusa de Tucuruí, o que permitiria a navegação entre o norte e o sul, pela hidrovia Tocantins-Araguaia. A cabotagem também merece mais atenção. Temos quase 8 mil quilômetros de costa marítima e isso também é muito pouco explorado.
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